Em um lugar não tão distante existia um
líder político, mas ao contrário do que se espera dessa classe, ele se mostrou
ao longo dos anos uma pessoa extremamente individualista. O ego humano é um
monstro perigoso, incontrolável.
Entre agrados e abraços um desvio ético
aqui, outro desvio financeiro ali. E o ‘homem bom’, como seu eleitores gostavam
de chama-lo, foi aos poucos construindo um patrimônio, uma carreira política
sólida. Só que havia um problema. Apesar de sólida, a sua carreira foi
construída sob uma base de areia. Sua conduta não era exemplar, mas a política
que ele adotava era bem eficaz. As pessoas gostavam quando recebiam cervejas em
vez de uma educação de qualidade. Sei não, mas tenho pra mim que os moradores
de Ceganópolis não tinham muita opinião crítica.
Ele se vangloriava por ter conseguido
manter o seu partido no poder por cerca de 16 anos, mas nunca o ouvi se
vangloriar de grandes obras, acho que ele não conseguiu terminar alguma. Ele
era bom porque proporcionava emprego á revelia, mas isso aumentava os gastos,
não com o social, mas com o pessoal. Aqui na civilização nós chamamos essa
prática de cabide de empregos.
Esse “homem bom” quando não podia se
reeleger indicava em quem seu eleitorado deveria votar, e eles eram obedientes,
votavam mesmo. Só que um belo dia a população resolveu dar um susto nele.
Quando este candidato garantiu que a vitória seria por mais de 1000, ela não
chegou a 50 votos de diferença. Pra ser mais exato foram só 31. Ahhh mas não se
esqueçam de que a necessidade em se manter no poder era tamanha que comprar
votos era a saída mais viável, pois ele não conseguia convencer com palavras e
propostas o eleitorado, menosprezar e ofender pessoalmente o adversário
político não estava funcionando mais.
Ceganópolis é um município pequeno. Os vereadores de lá são basicamente os mesmos há anos. Alguns deles não largam o cargo. Mas a política não é profissão, e sim um serviço.
Esse tal prefeito foi, pouco tempo
depois, cassado pela Justiça. Ai ele sumiu, porque se na prefeitura ele não
podia estar, então a cidade não merecia a sua nobre presença. Ou é o poder ou
não é nada!
O filho dele fez 22 anos e coincidiu com
o ano eleitoral. O ‘homem que faz do dinheiro do povo a sua bandeira’ resolveu
vesti-lo de fantoche e lançou a sua candidatura. E ele ganhou. O município
perdeu, mas ele ganhou. “Mas o menino não tem culpa da má fama do pai. Ele vai
fazer diferente do pai.” - assim o eleitor dizia. Sim, compreendemos: quem
assim nos fala quer apenas dizer, Fantoche não tem culpa de fazer o medíocre,
que falava aos corações da massa jovem daquele ano de eleição. À juventude
alienada, certamente, mas juventude de peso, em número, que ganha sempre da
minoria de jovens estudiosos. Que mal há em falar para a sensibilidade
embrutecida mais ampla?
Sabemos, claro, que a lembrança mais
funda de uma época vem misturada a pó, a disfarces. Não sei se me explico bem.
Quero dizer, a lembrança mais funda pode não ser a época objetiva. Mas o que
será mesmo a realidade objetiva sem a apreensão dela por um homem? Quero dizer,
o que há mesmo de objetivo na beleza de um rio sem olhos que o veja? É como
grandes feitos que não são reconhecidos, seja por militância partidária ou
orgulho. Dizem-nos “se os seus olhos se fecharem, o rio continuará lá,
independente dos seus olhos. Isto é objetivo”. Como as a escola
profissionalizante ou as farmácias populares que continuam lá queiram ou não,
pois já é uma marca que por detrás carrega o nome de quem conseguiu
idealizá-las e trazê-las para a realidade.
Como eu estava dizendo. O poder voltou
àquela oligarquia de antes. E o ‘homem do povo’ era quem dava as ordens por lá e
a política funcionava como uma arma de perseguição e angustias pessoais. O povo de Ceganópolis
se acostumou a aceitar esmolas enquanto via a falência da Educação e do sistema
público em geral.
Esse é o retrato fiel de uma cidade que sai às ruas para comemorar a vitória de um partido político, mas pouco se importa com o que dificulta seu dia a dia.
Esse é o retrato fiel de uma cidade que sai às ruas para comemorar a vitória de um partido político, mas pouco se importa com o que dificulta seu dia a dia.
*Ceganópois é uma cidade fictícia.Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. (?)
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