segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Um Lugar Chamado Ceganópolis*.


Em um lugar não tão distante existia um líder político, mas ao contrário do que se espera dessa classe, ele se mostrou ao longo dos anos uma pessoa extremamente individualista. O ego humano é um monstro perigoso, incontrolável.

Entre agrados e abraços um desvio ético aqui, outro desvio financeiro ali. E o ‘homem bom’, como seu eleitores gostavam de chama-lo, foi aos poucos construindo um patrimônio, uma carreira política sólida. Só que havia um problema. Apesar de sólida, a sua carreira foi construída sob uma base de areia. Sua conduta não era exemplar, mas a política que ele adotava era bem eficaz. As pessoas gostavam quando recebiam cervejas em vez de uma educação de qualidade. Sei não, mas tenho pra mim que os moradores de Ceganópolis não tinham muita opinião crítica.

Ele se vangloriava por ter conseguido manter o seu partido no poder por cerca de 16 anos, mas nunca o ouvi se vangloriar de grandes obras, acho que ele não conseguiu terminar alguma. Ele era bom porque proporcionava emprego á revelia, mas isso aumentava os gastos, não com o social, mas com o pessoal. Aqui na civilização nós chamamos essa prática de cabide de empregos.

Esse “homem bom” quando não podia se reeleger indicava em quem seu eleitorado deveria votar, e eles eram obedientes, votavam mesmo. Só que um belo dia a população resolveu dar um susto nele. Quando este candidato garantiu que a vitória seria por mais de 1000, ela não chegou a 50 votos de diferença. Pra ser mais exato foram só 31. Ahhh mas não se esqueçam de que a necessidade em se manter no poder era tamanha que comprar votos era a saída mais viável, pois ele não conseguia convencer com palavras e propostas o eleitorado, menosprezar e ofender pessoalmente o adversário político não estava funcionando mais.

Ceganópolis é um município pequeno. Os vereadores de lá são basicamente os mesmos há anos. Alguns deles não largam o cargo. Mas a política não é profissão, e sim um serviço.

Esse tal prefeito foi, pouco tempo depois, cassado pela Justiça. Ai ele sumiu, porque se na prefeitura ele não podia estar, então a cidade não merecia a sua nobre presença. Ou é o poder ou não é nada!

O filho dele fez 22 anos e coincidiu com o ano eleitoral. O ‘homem que faz do dinheiro do povo a sua bandeira’ resolveu vesti-lo de fantoche e lançou a sua candidatura. E ele ganhou. O município perdeu, mas ele ganhou. “Mas o menino não tem culpa da má fama do pai. Ele vai fazer diferente do pai.” - assim o eleitor dizia. Sim, compreendemos: quem assim nos fala quer apenas dizer, Fantoche não tem culpa de fazer o medíocre, que falava aos corações da massa jovem daquele ano de eleição. À juventude alienada, certamente, mas juventude de peso, em número, que ganha sempre da minoria de jovens estudiosos. Que mal há em falar para a sensibilidade embrutecida mais ampla?

Sabemos, claro, que a lembrança mais funda de uma época vem misturada a pó, a disfarces. Não sei se me explico bem. Quero dizer, a lembrança mais funda pode não ser a época objetiva. Mas o que será mesmo a realidade objetiva sem a apreensão dela por um homem? Quero dizer, o que há mesmo de objetivo na beleza de um rio sem olhos que o veja? É como grandes feitos que não são reconhecidos, seja por militância partidária ou orgulho. Dizem-nos “se os seus olhos se fecharem, o rio continuará lá, independente dos seus olhos. Isto é objetivo”. Como as a escola profissionalizante ou as farmácias populares que continuam lá queiram ou não, pois já é uma marca que por detrás carrega o nome de quem conseguiu idealizá-las e trazê-las para a realidade.

Como eu estava dizendo. O poder voltou àquela oligarquia de antes. E o ‘homem do povo’ era quem dava as ordens por lá e a política funcionava como uma arma de perseguição e angustias pessoais. O povo de Ceganópolis se acostumou a aceitar esmolas enquanto via a falência da Educação e do sistema público em geral.


Esse é o retrato fiel de uma cidade que sai às ruas para comemorar a vitória de um partido político, mas pouco se importa com o que dificulta seu dia a dia. 


*Ceganópois é uma cidade fictícia.Qualquer semelhança  com a realidade é mera coincidência. (?)

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